Imagem: cortesia do ChatGPT
Quando era pequeno vinha muitas vezes para esta casa, de onde escrevo estas linhas. Era a casa de férias dos meus avós. Um pequeno T1 com vista para o mar. A minha avó já vinha para esta vila algarvia na sua infância, tal como a minha mãe, eu e também os meus filhos. As férias grandes nesses tempos eram mesmo grandes. Chegavam a ter quatro meses, o que era um problema para os pais, que só gozavam duas a três semanas de férias no verão. Eu acabava por ficar quase todos os anos várias semanas de férias com os meus avós. Andava com eles para tudo quanto era lado, sobretudo com a minha avó. À noite juntavam-se muitas vezes a umas primas da minha avó, numa casa que estava sempre de porta aberta, literalmente, para os amigos que lá quisessem aparecer. Normalmente amigos de longa data, com mil e uma experiências partilhadas, o que contribuía para um clima muito alegre, descontraído, carregado de provocações alusivas a acontecimentos mais ou menos embaraçosos para alguém em particular, mas a que nenhum deles escapava, num convívio muito são e genuíno. Frequentemente, desde que houvesse número suficiente, ou combinação prévia, jogava-se uma canastada. A minha avó sentia-se verdadeiramente feliz neste ambiente. O meu avô, apesar do seu ar grave e sério, não perdia uma oportunidade para lançar uma pergunta irónica, fazer um comentário sarcástico ou uma piada gozona. A seu modo, ficava também agradado com estes serões. Eu andava por lá a cirandar ou a ver televisão, ou a ajudar na mesa de jogo. Não era difícil entreter-me com qualquer coisa.
A idade média dos convivas rondaria os sessenta anos, contudo, um deles, por se ter casado tarde, ou recasado, nunca me esforcei por perceber, era casado com uma mulher muito mais nova, a Srª Dª Inês. Ainda nem cinquenta anos devia ter no dia do episódio que estou a narrar, que se passou quando eu somava seis ou sete anos. Era uma senhora com muita classe. Muito alta e elegante, normalmente de vestido comprido, cingido na cintura. Muito bem maquiada e sempre com um belo sorriso nos lábios, companheiro inseparável daquele que trazia no olhar. Usava o cabelo, que era castanho claro, cor de mel, apanhado sobre a nuca. Jamais o avistei solto, o que reservava, tenho a certeza, exclusivamente para o marido. Lembro-me da sua voz agradável com um timbre muito próprio, que não era nem agudo como um I, nem grave como um O, assemelhando-se mais a um E. Não falava muito, mas recordo-me bem do seu riso alegre e das suas gargalhadas por causa das piadas que faziam parte da decoração destes encontros. Eu gostava muito dela, apesar do distanciamento que a sua admirável presença incutia nos demais.
Um destes serões teve lugar no T1 dos meus avós. Muito apertadinho lá estava todo o grupo reunido à volta da mesa redonda da sala, excepto os que não jogavam, que podiam ir até à varanda, que é longa e se estende até ao quarto, para fumar uma cigarrada ou gozar com o que quer que fosse que lhes passasse à frente ou na cabeça. Não me lembro de pormenores deste encontro. Talvez o tivesse mesmo esquecido completamente, não fosse a risada que mereceu a pequena e inocente pergunta que me saiu da boca. A pergunta, como o leitor deve estar a adivinhar, destinou-se à Srª Dª Inês. Os convidados já estavam de pé. A minha avó transformando a sala em quarto, para eu ir dormir logo de seguida. E a meterem-se comigo por causa da minha improvisada cama, que era o sofá, que nem precisava de ser aberto, tal era pequena a minha estatura. Foi nesta ocasião que me virei para a Srª Dª Inês e lhe perguntei se podia ficar a dormir comigo. Todos se riram muito do meu ingénuo atrevimento, mas não deixei de notar que o riso deles foi ainda mais animado quando se dirigiram zombeteiramente para o marido da Srª Dª Inês.