Quando era miúdo e estava de férias no Algarve costumava ir almoçar ao restaurante Rainha, em Faro, a convite dos meus avós. Os meus avós são algarvios e este era um dos restaurantes favoritos do meu avô, por se comer um bom peixe. Como tal, fazia questão de nos convidar todos os anos, e aquele era para mim um acontecimento marcante.
Do que me lembro, era um restaurante simples, sobre o comprido, com um balcão que percorria uma boa parte de uma das paredes laterais. Na outra ficavam as mesas e era numa dessas, de oito lugares, encostada perpendicularmente à parede, que costumávamos ficar. Eu e os meus irmãos na extremidade de fora, claro, o que me colocava frente ao palco de um verdadeiro espectáculo.
As mesas eram de fórmica, com aquelas pernas fininhas de ferro pintadas de preto, cobertas com as tradicionais toalhas quadradas de papel, descartáveis. O restaurante estava sempre cheio. No tecto, desprovido de qualquer adereço para abafar o som, rodavam calmamente ventoinhas que faziam lembrar helicópteros de pernas para o ar. Conversar naquele espaço não era nada fácil, como se pode adivinhar, mas aqueles sons, para um miúdo que não os ouvia muitas vezes, tornavam aquela reunião um evento memorável. As pessoas falavam alto e, de quando em quando, ouvia-se um "um bitoque para a mesa 4!" proferido com convicção por um dos apressados empregados. Estes vestiam todos camisa branca de manga curta com calças pretas, eles, ou saias pretas, elas. Andavam sempre a correr de um lado para o outro, com travessas, copos, pratos ou garrafas nas mãos. Se iam para um lado levavam-nos intactos. Para o outro, com os restos do que já não era comestível.
Outro som inconfundível era o do soltar a rolha da garrafa. Este ritual de abertura também me encantava. O empregado atarraxava o saca-rolhas, com uma velocidade cansativa, colocava a garrafa entre as pernas e num movimento rápido e determinado fazia com que a rolha se soltasse com o característico POP que tão bom era, e ainda é, de se ouvir. Era impressionante! Um segundo depois já o mesmo empregado passava com uma travessa nas mãos ou com uma nova toalha de papel.
Gostava de observar esta azáfama. Os empregados eram sempre os mesmos. Já faziam parte da mobília. O meu avô tratava-os pelos nomes. Eu e os meus irmãos íamos conversando sobre aquelas coisas de que conversam as crianças, desejosos pela hora da sobremesa, depois de nos termos deliciado com um belo bitoque. Peixe era só para os adultos e nós dávamos graças por isso. Um dos sons que se ouvia muito, para além do saltar da rolha, era o do "um molotov para a mesa 3!", bradado com igual intensidade e entusiasmo. Depois passava um empregado com o dito, uma montanha branca a escorrer caramelo. Aquele doce fascinava-me e creio que também aos meus irmãos, mas a minha mãe desencorajava-nos sempre de o comer, dizendo que era só ar. Eu não me importava nada com isso, pois gostava muito de mousse de chocolate e, nesta ocasião, já devia estar ávido por voltar a comer uma. No entanto, fiquei sempre com aquele desejo por satisfazer até à idade adulta, acabando por dar alguma razão à minha mãe quando finalmente o provei, sem deixar de me lamber todo com a doçura daquele monumento.
Depois da sobremesa chegava o momento da seca. Nós já não tínhamos nada ali a fazer, mas aos meus pais e avós ainda lhes faltava tomar o café e ficar ali um tempo, para nós infindável, a pôr a conversa em dia. Alegrava-me quando via o meu avô levantar-se e dirigir-se ao balcão. Era sinal de que a toalha de papel iria ser transformada num embrulho com todos os restos que ficaram na mesa. E de que finalmente nos iríamos embora. O meu avô ia para aquela zona disponível do balcão, a seguir aos lugares de banco alto onde almoçava sempre alguém mais solitário, com a sua mariqueira preta de alça, que me suscitava respeito e consideração. Quando voltava sabia que íamos sair dali logo depois, sem as saudades que sabíamos vir a ter no ano seguinte, embora nunca tão grandes como as que tenho agora.