O cidadão trepador

Confissões de um trapezista

A profissão de trapezista sempre me atraiu. Fascinava-me aquele baloiço lá em cima, tão alto, e a coragem dos acrobatas fazendo cambalhotas, piruetas e saltos, sem medo de cair. Gostava tanto daquele mundo que queria pertencer a ele. E foi o que acabou por acontecer, embora sentisse que podia ser mil e uma outras coisas.

Quando achei que estava preparado, procurei um dos melhores circos, com uma tenda sólida e grande, onde havia um trapézio que parecia ter sido feito para mim. Gostaram de mim, das minhas habilidades e fui facilmente admitido naquele circo.

O trapézio prometia prometer. Tinha um aspecto robusto e parecia assentar-me que nem uma luva. De certeza que seria muito feliz nele. E fui-o. Este trapézio permitiu que fizesse algumas habilidades e permitiu que tivesse uma família. Casei com a ginasta mais bonita do circo e tivemos três pequenos acrobatas. Aquele trapézio, naquele circo, dava-me segurança e era forte o suficiente para poder connosco os cinco.

Acontece que com o tempo comecei a achá-lo repetitivo. Não permitia que fizesse mais movimentos do que aqueles que há tanto praticava. E comecei a querer muito mudar de trapézio. Queria um que me desse mais liberdade, que fosse mais largo e mais ligeiro. Que desse para fazer o pino ou equilibrar-me de cabeça. Que me fizesse sentir um verdadeiro trapezista.

Para além disso o tempo para apresentar os meus números era cada vez menor porque ao programa iam sendo acrescentadas mais actividades. Tinha que passar a fazer tudo com muito mais rapidez, pois queria mostrar ao público aquilo de que era capaz, e isso originava algumas falhas. E os aplausos, que era aquilo de que mais gostava, começaram a deixar de encher o circo.

Apesar de tudo continuei a baloiçar. Apesar de saber que aquele trapézio me tomava o tempo todo e me deixava tão cansado que não conseguia fazer mais nada. Queria saltar dele mas lá do alto não se via a rede. Sabia que não era um trapezista brilhante e tive medo de não ser aceite noutro circo. Ao menos aquele trapézio era forte para nos sustentar.

Ainda tentei tornar a atividade mais interessante, utilizando roupas diferentes, formas diferentes de subir ao alto, mas nada disso era suficiente. Só via estas duas alternativas: ou aguentar ou cair. E qualquer uma delas me causava profunda tristeza. A primeira era a negação da felicidade. A segunda era ainda pior.

No entanto ouvia uma voz a dizer-me: “podes saltar à vontade, não tenhas medo.” Uma voz que abria o caminho para uma outra alternativa, que podia ser viável! E eu lembrava-me das histórias que a minha mãe me contava. De que há um Deus que toma conta de nós e que basta acreditarmos nisso para que nada nos venha a faltar. O mesmo Deus que fez as flores e os pássaros e que, até a esses pequenos e belos seres, lhes não deixou faltar nada.

São histórias! Pensei tantas vezes. Tanta gente que sofre sem Deus as acudir. Tanta gente odiosa e onde está Deus? Porque haveria Ele de se preocupar comigo? Mas acho que sou eu que ainda não percebo nada sobre Deus. Apesar destes pensamentos não deixava de ouvir aquela frase vinda lá do alto. E cada vez mais alto.

Um dia, agarrei-me firme às cordas, com os meus filhos, uns sobre os outros, encavalitados nos meus ombros e a minha mulher a meu lado. Estiquei-me o mais que pude, dei-lhe a mão e saltámos!

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