Já presenciei muitas coincidências. Algumas até com contornos de transcendência, o que não é o caso da que vou contar. Contudo, é uma história digna de registo.
Tive um colega nos 1º e 2º anos (atualmente 5º e 6º) de quem era amigo, o Ricardo Taborda. Passámos a dar-nos bastante quando ambos entrámos para o Hóquei Patins, no Parede Futebol Clube, que era ali ao pé da praia da Parede. Nessa altura ele ia ter comigo a minha casa, que não era longe do ringue, e até chegámos a andar de patins no meio da minha rua, que tinha sido alcatroada há pouco tempo. Ainda preservo desse tempo uma caricatura que fiz dele com o equipamento do PFC, como as que havia dos futebolistas.
Entretanto, os horários mudaram e ambos saímos do hóquei, mas continuámos a encontrar-nos na escola. Uma escola em Sassoeiros, que lecionava desde a pré-primária até ao 2º ano, chamada Externato Zambeze. Quando concluímos esse ano fomos para escolas diferentes e nunca mais nos encontrámos.
Quase trinta anos mais tarde, numa das minhas esporádicas deslocações em trabalho à minha querida cidade de Tete, em Moçambique, quando cheguei à obra, cumprimentei os meus colegas residentes e um outro homem que lá se encontrava, dono de uma empresa que também lá estava a trabalhar, mas que nem me passou pela cabeça que fosse o Ricardo. Nem eu passei pela sua. Quando nos vimos pela última vez tínhamos apenas doze anos, mas agora éramos homens feitos. Porém, vim a perceber que era ele assim que ouvi um colega meu, ao telefone, pronunciar o seu apelido Taborda. Nesse instante fez-se-me luz, pois os traços que permaneceram no meu subconsciente logo me revelaram que era o Ricardo aquele homem. Vim isto a confirmar quando indaguei, junto de um meu colega, o seu primeiro nome.
Desde esse momento fiquei ansioso por encontrá-lo para confrontarmos as nossas memórias. Demorou algum tempo para que isso acontecesse. Penso que só no dia seguinte, até porque ele não estava permanentemente em obra. Acabei por vê-lo, já de noite, sobre a ponte que estávamos a reparar e dirigi-me a ele tratando-o pelo primeiro nome e perguntando-lhe se estava a ver quem eu era. Não foi preciso quase tempo nenhum para que ele exclamasse: Nuno! Este reencontro nada teria de extraordinário não fosse o facto de ocorrer precisamente a meio da ponte Samora Machel, mesmo por cima das águas do rio Zambeze!
Quem havia de dizer, no início dos anos oitenta, quando me despedi do Ricardo no Externato Zambeze, que só havia de o voltar a ver dali a trinta anos, a 8000 km de distância e sobre o rio que batizou a nossa escola?