Quando andava na 4ª classe tive um colega que me ficou na memória, ou melhor, no coração, que é onde ficam guardados aqueles que, às vezes por um simples gesto, nos fazem sentir especiais. Frequentámos a mesma escola apenas esse ano e poucas vezes falei com ele. Ele era mais velho, era repetente, e todos o temíamos. Era muito rebelde e tinha alguns problemas familiares, pelo que se ouvia dizer. Tenho ideia de que vivia com o pai e que era de família abastada, mas isto são memórias muito ténues, que oferecem pouca garantia de veracidade. Contava-se que ele uma vez fugiu de casa e tenho quase a certeza de que chegou a ser expulso de um colégio onde tinha andado antes. Passava os recreios a jogar à bola e de pouco mais me recordo. Talvez isto fosse o suficiente para que hoje ainda me lembrasse dele, como me lembro de tantos outros, mas foi um pequeno gesto seu que criou a amizade que ainda lhe tenho passados quarenta anos.
Todos o temíamos, como já disse, pois nunca sabíamos quando seríamos nós as vítimas dos seus maus fígados. Mas todos os rapazes o admirávamos e invejávamos a sua maneira de ser e as aventuras que contava. A sua atitude, a sua coragem. Eu nem chegava a aproximar-me muito dele. Ao pé dele parecia um puto três ou quatro anos mais novo, apesar de nem dois anos termos de diferença. Ainda por cima eu nem gostava de jogar à bola. Pensava que ele nem sabia que eu existia quando um dia, estando a ser atacado por um colega, que já nem me recordo quem, nem se foi uma agressão física ou apenas verbal, ele veio em meu auxílio, o que fez parar imediatamente a controvérsia. A maneira como interveio deu-me a entender que o seu propósito não fora atacar o meu adversário, mas sim defender-me. A partir daquele momento passei a sentir-me seu protegido e nunca mais fui alvo de novos ataques. Fiquei muito admirado na altura, pois não via nada que pudesse fazê-lo ter por mim qualquer consideração, mas pelos vistos tinha. Mais do que deixar de ter um inimigo a passei a ver nele um amigo. Mas no ano seguinte, já não sei por que razão, provavelmente por causa do seu mau comportamento, mudou de escola.
Muitos anos mais tarde, já ele era homem, vi-o algumas vezes num colégio perto de casa dos meus pais. E ele também me viu, sei-o. Mas nunca tive coragem de o abordar, tolhido por aquele "sentimento de timidez que se tem por quem se admira" (citando Joel Neto). Não foi só pelo receio de ele já não se lembrar de mim. Foi também por um estúpido mal-estar provocado por uma vergonha preconceituosa de que me apropriei pela elação que tirei de ele trabalhar como contínuo naquela escola. Isto por tê-lo visto no recreio a tomar conta dos miúdos. Depois disto, que se repetiu três ou quatro vezes, nunca mais o voltei a ver na vida.
Quando apareceram as redes sociais, e eu a elas aderi alegremente, lembrei-me de o procurar ainda por diversas vezes, mas sempre sem sucesso. Contudo, ontem, tendo encalhado em fotografias antigas, voltei a lembrar-me dele e a perguntar-me o que seria feito dele e decidi fazer uma pesquisa na net. Hoje em dia consegue-se obter muita informação sem ter que se mexer o rabo da cadeira. E foi o que aconteceu. Pesquisei pelo nome e pelo colégio onde o via trabalhar e esbarrei num artigo de um jornal desportivo, que o homenageava, fazendo referência aos tempos em que ele começou nas lides de treinador de futebol no tal dito colégio... Depois de várias outras pesquisas vim a saber que ele é um treinador com bastante boa reputação pela sua exigência, dureza e perfeccionismo, tendo levado equipas da segunda divisão a morder os calcanhares das de primeira. Que dedica cinco horas diárias a esta causa, para além do seu trabalho normal e que tem mulher e filhos. Fiquei muito satisfeito por ele. Por ter conquistado o que conquistou apesar das dificuldades por que passou. Por ter ido mais além do que aquilo que eu supunha. Por outro lado incomodou-me o sentimento de pena que tive quando achei que ele era contínuo, como se houvesse profissões menos dignas do que outras... Acabei por encontrar nas redes sociais o clube onde trabalha atualmente e consequentemente encontrá-lo a ele também. Mas, uma vez mais, não o abordei...