A noite passada tive um sonho mesmo estranho. Oscilava entre o sonho e o pesadelo. A família que tinha era a mesma que tenho: a minha mulher e os meus três filhos. No entanto a minha vida era totalmente diferente. Tínhamos uma condição social mais elevada. Trabalhava numa grande empresa onde exercia um cargo de responsabilidade. Ganhava bem o que me permitia ter uma vida desafogada. Os meus filhos andavam num bom colégio, tinha uma boa casa, empregada, enfim, não nos faltava nada de material e pode dizer-se que éramos uma família feliz.
Até aqui o sonho estava a ser bom, mas, à boa maneira dos sonhos, em que num momento estamos num cenário e no seguinte podemos estar noutro completamente diferente, sem que nos apercebamos de qualquer descontinuidade, o cenário alterou-se. Saí deste cenário idílico entrando noutro bastante surreal, negro e assustador. Havia pessoas estranhas que me alfinetavam para andar mais depressa e eu não podia abrandar um pouco e muito menos parar. Havia criaturas estranhas que me desviavam para um caminho escuro que eu queria evitar a todo o custo mas sentindo-me impotente para me lhes opor. Nem se via qualquer luz natural que pudesse indiciar uma saída daquela espécie de caverna. Sentia-me completamente só e perdido naquele lugar, sem saber como sair dele. Mas quando começava a desesperar o cenário alterava-se outra vez e encontrava-me em casa com a minha família, onde me sentia em paz e onde havia amor. Estes cenários iam se alternando sucessivamente até que, chegando à exaustão, consegui finalmente acordar.
Limpei o suor da testa, olhei para o meu lado e vi a minha mulher a dormir docemente com um sorriso nos lábios, certamente a ter um sonho melhor do que o meu. Nos primeiros momentos ainda pensava que o sonho era a realidade, mas a ténue luz que entrava pelas frinchas da janela e revelava os contornos da cómoda e do crucifixo na parede, revelou também os contornos da minha própria realidade e senti uma onda de alívio. Dei graças a Deus por ter a vida que tenho e de tudo não ter passado de um pesadelo.
Que bem me soube sair da cama e tomar o pequeno-almoço no quintal com a família. Acordar os rapazes para irem para a escola, beijar a minha mulher e sair de casa levando comigo a minha filha, sentada no guiador da bicicleta, que é da maneira que ela mais gosta de ir para a escola.
Que bom que foi fazer os 6 km que nos separam da vila e chegar ao jardim ansioso por ver o efeito que a noite tinha tido nas plantas, depois do vento que se fez sentir. E constatar como as plantas dependem do tratamento que recebem, agradecendo-nos com o seu crescimento, a sua vivacidade e com mais um ou outro botão.
Que bem me senti quando lhes limpei as folhas mortas, lhes podei os ramos ressequidos, quando retirei da terra as ervas daninhas e a tornei mais porosa e leve para melhor drenar e conter a água, que não lhes pode faltar mas também não ser em demasia.
Que alegria senti quando olhei para o jardim e vi a sua ordem e a sua beleza e como as pessoas gostam de lá passear, namorar ou meditar. E sentir que, apesar das plantas crescerem por si próprias, só atingirem o seu esplendor com a nossa humilde ajuda. E de como também eu dependo delas porque, tal como elas, fico acabrunhado e triste quando não estão bem tratadas.
Olhando para as minhas mãos grossas e calejadas, dou mais uma vez graças a Deus por ter esta vida que tanto me satisfaz. Onde sou eu a decidir o que fazer no meu jardim, que é assim que o considero mesmo sendo público. Um trabalho tão adequado à minha personalidade carente de solidão mas ao mesmo tempo de reconhecimento. De autonomia. De liberdade.
Podemos não ter uma vida desafogada mas não nos falta pão nem tecto, alegria, paz e amor. E quando se tem esta riqueza tudo o resto se torna dispensável.